Cabelo Vermelho

Há quem diga que ela era uma fada. Outros falam que era bruxa. Contam que vagava pelos bosques e que ia marcando o caminho com mechas de cabelo pensando no retorno.

Uma velha da região jura que a viu passar. Outra diz que recolheu uma mecha, enfiou num saco de couro e guardou num velho baú. A mecha desapareceu misteriosamente. Contam que era tão vermelha e brilhante quanto a brasa de carvão.

Essas mechas pertenceram a uma moça linda e delicada conhecida pelo nome de Cabelo Vermelho. Tinha a pele muito clara, era elegante e simples. Seus vestidos eram estampados com flores miúdas em fundo branco. Vivia num castelo e todos os dias passeava pelos bosques da região. Saía sempre com uma cesta nas mãos. Carregava leite para oferecer às crianças e frutas para os velhos. Às vezes, levava flores e entregava para as mulheres. Outras vezes, distribuía pães para os camponeses.

Contam que três irmãos a cortejavam sempre que ela passava. Cabelo Vermelho não olhava para eles porque guardava um segredo.

Certa vez, ela perdeu o anel de pedrinha vermelha no lago. O irmão mais novo se ofereceu para ajudá-la e mergulhou nas águas límpidas. Era a oportunidade que faltava para conversarem. O anel foi achado e ela, rapidamente, colocou no dedo. Esse anel era mágico e não poderia tê-lo perdido.

Todas as vezes que Cabelo Vermelho avistava o irmão mais novo, se lembrava das últimas palavras de seu pai.

“Nunca tire o anel do dedo e não se case antes de completar vinte e um anos.”

Ela não sabia que parte do encanto havia se quebrado quando o anel escorregou de seu dedo ao lavar as mãos no lago. O anel pertencera à mãe de Cabelo Vermelho, uma feiticeira com quem seu pai havia se casado sem a permissão da família, e a protegeria até atingir a maioridade.

O rapaz estava em todos os lugares por onde a moça passava e ela não conseguia mais se esconder. Passeavam e conversavam. Um dia, ele a pediu em casamento. Ela ainda tinha dezoito anos e pediu que ele esperasse o tempo passar. Ele insistia e o tom dos cabelos dela se acentuavam a cada pedido. O amor foi arrebatador e eles se casaram no bosque perto do lago onde havia perdido o anel.

Naquela noite, ouviram um grito de desespero. O noivo havia se transformado em um peixe e desaparecera. Quando amanheceu, Cabelo Vermelho olhou para o lago e não o encontrou.

Dizem que ela procurou pelo noivo por todos os lagos de todos os bosques por muito tempo. Seus cabelos, vermelhos como os da mãe, foram arrancados para voltar para o castelo quando encontrasse seu noivo. Ela saberia quebrar a magia pois era feiticeira como sua mãe.

Cabelo Vermelho nunca mais foi vista.

Fátima Campilho

Escrito por

Professora de Língua Portuguesa e Mediadora de Leitura.

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