Quase medo

Assim que acordava, Valentina abria a porta e corria para o quintal. Olhava para o céu e conversava os bichos disfarçados de nuvens. Afagava Veludo, o vira-lata de pelo e olhos negros. Enfiava o dedo na gaiola de Romeu e Julieta, o casal de periquitos, e sentia pena de vê-los presos. Observava lampião caminhando vagarosamente como qualquer cágado a procura de sua Maria Bonita. Espiava Tristão e Isolda que a olhavam e ciscavam livres entre as plantas. Ia para a cozinha se lambuzar no mingau reforçado com gemas das galinhas sem nome preparado por Dona Marieta para aquela menina mirrada e corajosa.

Voltava para o quintal e ia para o balanço que Seu Zeca tinha pendurado no pé de abacate. Valentina queria ser equilibrista e se apresentava para a plateia invisível e atenta. O quintal sem muros tinha muitos pés e era a alegria dos amigos que subiam nas árvores para pegar as frutas mais altas. À noite, a farra era na rua. Pique-esconde, passaraio e mais o que a criançada inventasse. Nos finais de semana, brincava de escolinha, casinha e castelo com as meninas, e com os meninos, de pipa, carrinho de rolimã, bola de gude. Caça ao tesouro era para todos e se aventurava pelo mato ignorando o perigo. Às vezes ia para a praia mergulhar e navegar na boia de pneu. Dormia sozinha no seu quarto e não tinha medo de escuro, bicho-papão, monstros e fantasmas. Se apareciam, enfrentava todos com sua varinha mágica.

Valentina ficava assustada com a ameaça dos trovões, o ronco do trator e o barulho dos aviões no telhado da casa. Era quase medo. Passava logo. Mas seu coração apertava com a passagem do bombeiro, da polícia ou da ambulância.

Um dia, ao voltar da escola com Dona Marieta, uns amigos do trabalho de Seu Zeca vieram avisar que ele não voltaria para casa. Valentina não entendeu e chorou.

Muitos trabalhadores não voltaram para casa. Outros fugiram. Outros desapareceram para sempre.

A partir daquele dia, o medo chegava quando ela ficava sozinha. E passou a dormir com sua mãe que lhe contava muitas histórias da cidadezinha onde tinha passado sua infância. Valentina tinha medo de ser levada pelos soldadinhos de chumbo de farda verde e olhos misteriosos.

O tempo parou de tanta saudade.

Seu Zeca voltou para casa com a barba enorme, olhar de horizonte e profundas marcas na alma. Abriu as portas das gaiolas e Dona Marieta pode ver um breve sorriso.

Valentina não largava seu pai feito raiz e árvore. E foi assim até, alguns anos depois, ser levado por uma sirene para o infinito.

Fátima Campilho

Escrito por

Professora de Língua Portuguesa e Mediadora de Leitura.

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